feira do último sábado ou lidando com as expectativas que criamos sobre nós mesmos

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Se passaram oito meses desde que participei da última fêra féra. Fiz a conta agora nos dedos e mal acreditei quando terminei de contar, afinal oito meses é bastante coisa! É mais que meio ano, é tempo pra caramba! 

Bom, muita coisa aconteceu nesse meio tempo: comecei a trabalhar fixo, mudei de casa, continuei a fazer cestas, recebi amigos em casa, assumi de vez que parei de fazer os concretos e fui prometendo para mim mesma que no final do ano participaria de uma feira. 

Na minha cabeça era um ótimo plano, pois até o final do ano eu teria produzido bastante, teria colocado em prática várias ideias e teria um monte de novidades para mostrar. Nem preciso terminar o parágrafo para ficar claro que nem tudo correu como eu esperava, né? 

O que eu consegui produzir, eu documentei no instagram da Simplee e não foi muito mesmo. As cestas levam bastante tempo para serem feitas e as faço durante a noite. Subtraindo o tempo de comer (e eu gosto muito de valorizar esse sagrado momentinho), conversar, encontrar amigos, fazer alguma coisa da Piscina e dormir, não sobram mais do que algumas horinhas por semana. 

Até aí tudo bem, acho que cada um tem seu ritmo e eu estou (aparentemente) bem com isso. Gosto de levar as coisas desse modo, com a produção sendo parte da minha vida e não o centro absoluto dela. Acho que a questão está no que eu esperava ter feito ou realizado até o final do ano. 

As ideias costumam marinar um pouco na minha cabeça até que eu consiga de fato colocá-las em prática e mesmo que demore, acho super importante conseguir realizar pelo menos uma parte do que eu estava pensando. Dá uma sensação boa, sabe? Então por mais que tome tempo, acho gratificante chegar a esse lugar em que o pensamento toma forma e você pode ver o que funciona e o que só funcionava mesmo no plano da teoria. 

E bom, na teoria eu teria produzido muitas coisas novas, teria muitas peças e seria ótimo. Foi chegando o final do ano e eu vi que não ia rolar e eu já tinha me conformado em deixar isso pra lá. "Paciência, participo no ano que vem".

Até que a Renata, que faz pães deliciosos e sempre era uma pessoa agradável de encontrar nas feiras, me perguntou se eu queria dividir um espaço na próxima fêra féra. Assim economizaríamos na taxa de participação, eu teria um espaço proporcional à minha produção e participaria da feira, o que é ótimo, pois ficar sumida por muito tempo não faz bem nem para as mais bem-sucedidas das marcas, né?

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Fiz algumas cestas (quatro, para ser mais precisa) com esse foco de feira. Vendi uma das maiores neste interim e fui deixando para produzir os colares de lã que eu tinha pensado mais pra frente, tão pra frente que eles quase não saíram. Porque né? Sempre tem algum compromisso, ou alguém vem visitar ou é viagem que aparece e as coisas vão se arrastando.

Não comprei sacolinhas, nem mandei imprimir mais cartões. Fui com o que eu já tinha de meses atrás e produzi alguns colares alguns dias antes e na madrugada anterior à feira. Nesta mesma noite, separei tudo que eu tinha, inclusive as produções antigas para levar. 

E eu fiquei feliz, sabe? Olhei tudo, achei tudo ótimo. Adorei meus colares novos e deixei tudo pronto para o dia seguinte, ou quase tudo. De manhã tomei meu habitual café demorado de sábado e fui finalizar algumas tags e precificar as peças. Nisso, me atrasei, sai correndo e cheguei quase 1h depois do horário devido. 

Me senti amadora e arrumei minha mesa às pressas. Que despreparo. Senti quase como se estivesse bancando a displicente perante aquelas pessoas que estavam ali, como se eu não estivesse levando tudo a sério como deveria, afinal "eu não vivo disso" e estou aqui como um plus.

Esta sensação, de que eu praticamente não merecia estar ali me deixou insegura. As minhas coisas ali organizadas às pressas na bancada não me pareciam tão boas como na noite anterior, parecia um trabalho inacabado. Meus colares novos não eram tão bons assim como eu pensava, "as pessoas preferem os de concreto que não faço mais" eu me dizia. 

Será que eu falaria ou pensaria algo assim de alguém? Por que eu tenho que ser tão cretina comigo mesma? Eu não sei. Que loucura é se deixar levar por estes pensamentos. Precisei de alguns dias de distanciamento para poder ver como eu estava me torturando dentro da minha cabeça, como eu estava desmerecendo tudo o que eu fiz e faço só porque esse não é meu "ganha  pão", só porque eu não faço "só isso". 

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Mas essa insegurança, esse sentimento de desmerecer algo me fez pensar sobre mim mesma, sobre a Simplee e sobre o que ela é afinal. Me senti quase no mesmo lugar que eu estava há 1 ano, quando eu durante o ano novo estava buscando o sentido da Simplee, pensando em como fazer dar certo, ansiosa pela nova comunicação visual que estava por vir. Essa ânsia de fazer algo, de buscar sentido, de querer chegar a algum lugar e "dar certo", seja lá o que isso signifique. 

É bom repensar o que você faz, é bom identificar os sentimentos e os pensamentos e não só levar a vida e produzir a toque de caixa. E eu estou nesse momento, de rever o propósito, o que me move, o que eu valorizo e o que eu quero ser e o que eu quero que a Simplee seja. 

E sabe? às vezes me vem alguns vislumbres do que é esse lugar para onde estou indo. É engraçado pensar que talvez estes vislumbres do que eu quero e do que seria meu "propósito" sempre estiveram presentes, de maneira tímida, escondida, tentando se encaixar em coisas que eu achava que deveria ser ou fazer, mas que estão aqui desde sempre. E o mais legal é que meus caminhos, experiências e processos só acrescentam a tudo isso.

Bom, vou marinar estes pensamentos e espero logo poder conectar tudo com um fio que faça sentido e que depois eu possa desenrolar por aqui através de palavras.