oficina de beneficiamento de lã no mãostiqueiras

oficina de beneficiamento de lã no mãostiqueiras
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Juntar o útil ao agradável. Posso dizer que essa máxima resume e define o que foi o meu primeiro final de semana de fevereiro. No fluxo do mês anterior, de desmembrar desejos em pequenas ações, me inscrevi em uma oficina sobre beneficiamento de lã que já namorava há algum tempo.

Conheci o projeto Mãostiqueiras pela internet, literalmente ‘dando um google’ em oficinas sobre lã. O Mãostiqueiras é o primeiro link que aparece nas buscas, que, infelizmente, não acumulam muitos resultados. Quem quer aprender mais sobre lã acaba não encontrando tanta coisa.

E por coincidência, assim que fiz a reserva em uma cabaninha muito charmosa e aconchegante em Campos de Jordão (escreverei mais sobre ela em breve), o Airbnb já me sugeriu algumas experiências no local, e para minha surpresa, dentre elas estava uma oficina de 3h nas Mãostiqueiras. Mesmo já tendo falado com a Juliana (idealizadora do projeto) pelo Whatsapp e pelo email, preferi me inscrever pelo Airbnb, pela praticidade mesmo.

O Mãostiqueiras surgiu quando a Juliana (Müller Bastos) se deu conta que a maior parte dos criadores de ovelhas da região descartavam toda a lã proveniente da tosquia anual. Alguns queimavam, outros jogavam no lixo e não aproveitavam nada dessa matéria-prima tão incrível.

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Através do projeto a lã que antes seria descartada é recebida, processada e transformada em objetos de decoração de todo o tipo, feitos por mulheres da região, resgatando saberes e modos tradicionais de produção. Assim, o projeto não só atua na capacitação e geração de renda para estas mulheres como também passa adiante conhecimentos de técnicas artesanais que estão sendo perdidos com o passar do tempo.

Bom, agora vamos falar da oficina. Sabe quando você faz uma coisa e o tempo passa mais devagar e você fica ali imerso e nem vê que horas são? Então, foi assim! O dia estava lindo e fresco (ao contrário do como tem sido o verão em São Paulo) e fiquei ali por pouco mais de 3 horas aprendendo sobre os processos pelos quais todo novelo de lã precisa passar.

Ovelhinha fofa já tosquiada e a tesoura utilizada para tosquia.

Ovelhinha fofa já tosquiada e a tesoura utilizada para tosquia.

As ovelhas precisam passar pela tosquia todos os anos. Caso não sejam tosquiadas, podem ficar igual a famosa ovelha Shrek, que ficou 6 anos perdida de seu rebanho. Aliás, vale a pena clicar neste link, do Saber Fazer, o projeto incrível da Alice Bernardo, de Portugal (que sou fã desde meu primeiro blog de sei lá quando), que conta os porquês de se fazer a tosquia das ovelhas. Mas enfim, depois de tosquiar a ovelha, é preciso separar a lã, pois algumas partes, as que ficam mais próximas dos genitais do bichinho, por exemplo, não são próprias para trabalhar.

lã já lavada, mas ainda com sujeiras e lã secando ao sol.

lã já lavada, mas ainda com sujeiras e lã secando ao sol.

Após separar a lã, precisa lavar. Foi aqui que começamos de fato os processos na oficina e depois de separar uma quantidade de lã, a lavamos em três etapas, passando de um recipiente ao outro, mexendo e tirando o excesso de sujeira. Somente no primeiro recipiente tinha um pouquinho de sabão, nos outros somente água. Nesta etapa é possível sentir nas mãos a lanolina, um emoliente natural presente na lã e produzida pelas glândulas sebáceas das ovelhas. Ao ser extraída da lã, a lanolina é um poderoso hidratante, presente em vários cosméticos. Já as ovelhas produzem a lanolina para proteger os pêlos e torná-los impermeáveis à água.

na primeira foto a lã seca e na segunda, a lã já aberta.

na primeira foto a lã seca e na segunda, a lã já aberta.

Com a lã seca é hora de ‘abrir’. Ao abrir a lã, os últimos resquícios de sujeira acabam caindo e a lã estará com suas fibras bem aparentes, prontas para cardar.

Juliana mostrando como se faz a cardagem manual e na segunda foto a roca em uma versão moderna e mais simples de usar.

Juliana mostrando como se faz a cardagem manual e na segunda foto a roca em uma versão moderna e mais simples de usar.

O processo de cardar da lã existe para que todas as fibras que estavam espalhadas, se alinhem em uma única direção. É basicamente como pentear as fibras com duas escovinhas. Estas fibras são muito ‘abertas’, o que faz com que a aderência entre elas seja grande, então elas ficam unidas muito facilmente.
Na foto, a gente pode ver um processo manual de cardagem da lã, mas obviamente que existem cardadeiras elétricas e industriais para facilitar o processo quando em grande escala. A Juliana me mostrou como se faz a cardagem manual mas depois utilizamos uma cardadeira maior e movida a manivela, bem mais fácil.

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Para que a lã se torne um fio, é preciso que estas fibras fiquem ainda mais juntas. E aí entra o processo de fiar a lã. Ao fiar a lã, todas aquelas fibras são torcidas, aumentando a resistência do material. Então o que a roca faz basicamente é torcer continuamente as fibras cardadas. Para fins demonstrativos a Juliana também me mostrou primeiro como se fia com um fuso, o que eu achei dificílimo. Depois tive o prazer de usar a roca recém adquirida por ela, super leve, bonita e fácil de usar (na medida do possível, para mim, não foi).

Uma das grandes dificuldades que senti foi como ‘dosar’ a quantidade de lã que temos que soltar aos poucos com as mãos para a roca fiar. Só com muita prática, mesmo. Para ter a experiência de usar a roca com mais facilidade, a Juliana já separou um ‘novelo-escola’, acho que foi assim que ela chamou, que consiste em um novelo com a lã cardada em uma quantidade certinha para fazer um fio, assim pude ‘sentir’ mais como funcionava a roca, sem me preocupar com a quantidade de lã a ser liberada aos poucos com as mãos. Só fazendo para entender.

Sempre digo que aprender algo novo é respeitar e ver a grandeza daquele que faz e detém a técnica de um saber.

Esta experiência foi mais uma que tive o prazer de vivenciar e, ao escancarar o processo do fazer e me dar essa noção, mesmo que superficial das nuances de cada etapa, fez com que eu sentisse um respeito profundo por todo o trabalho manual envolvido em um novelo ou artefato de lã.

E eu amo sentir isso.