o tricô inútil

A ideia de compartilhar palavras, imagens ou ideias simplesmente pelo fato de que precisamos alimentar os algoritmos tem sido, para mim, cada vez menos lógica.

Não consigo manter uma consistência na produção de coisas e muito menos no compartilhamento de fatos e ideias sobre a Simplee. E há uma pressão para que isso ocorra, mas que tem tido cada vez menos efeito sobre mim, no sentido de que essa pressão não é o suficiente para que eu me motive a postar qualquer coisa só para “não ficar sem postar".

O às vezes me deixa triste de não escrever por aqui é o fato de que esse site me custa algumas centenas de reais. Não faz sentido deixá-lo aqui parado, é um desperdício. Então escolho aproveitar o espaço para soltar algumas palavras e quem sabe tirar algo bom desse momento de inércia.

Não é a primeira vez que me sinto assim e escrevo sobre isso. Se a gente prestar bem atenção, já vivemos e já sentimos coisas bem semelhantes ao que estamos vivendo no agora. E se de alguma forma os desconfortos retornam, talvez o melhor seja prestar atenção de verdade e tentar fazer algo efetivo a partir deles.

Esses dias li uma frase que não me lembro bem em que perfil eu vi (muita informação, pouco armazenamento), que dizia algo como "nem tudo o que você faz precisa ser um produto”, ou algo com relação a ser ok você despender tempo em algo que não é necessariamente um produto. Só a existência e necessidade de frases motivacionais desse tipo é uma constatação do quanto a nossa bolha anda forçando a barra.

Na era do empreendedorismo, dos stories de “recebidos”, dos nômades digitais e das lives não solicitadas, nada mais natural do que a gente passar a enxergar tudo como um produto, inclusive nós mesmos. Nossas melhores versões online estão sempre produzindo alguma coisa, ou comendo algo muito bom ou compartilhando algum ensinamento ou insight sobre as dificuldades da vida.

E se parássemos tudo isso? O que restaria? Se não fosse para compartilhar, estaríamos fazendo tantas coisas? Se não fossem os exemplos "bem sucedidos", estaríamos produzindo a qualquer custo, almejando ter mais seguidores? Estaríamos deixando nossos amigos no vácuo para fazer stories com stickers? E não me levem à mal. Eu faço/fiz essas coisas. Eu trabalho fazendo stories com stickers, eu sempre me cobrei para fazer mais cestos, fazer alguma coisa para fotografar, compartilhar, produzir mais uma cesta, mais colares, cozinhar uma comida bonita e saudável, e mais, mais, mais. Precisamos fazer sempre mais.

Mas, nesse exato momento, eu meio que estou cansada. Não estou com vontade de produzir nada e nem de falar nada. E pelo visto eu até tenho o que falar – vide este post enorme que simplesmente saiu pelos meus dedos –, mas não tenho vontade de compartilhar desse jeito.

Eu continuo a fazer muitas coisas mas elas não são necessariamente um produto ou não são relevantes para ninguém, como esse tricô. Não importa o que me motivou a fazê-lo, de onde veio a lã ou qualquer coisa do gênero porque ele não vai resultar em um produto, ele não estará à venda. Ele é só um tricô, que provavelmente vai ser uma gola porque não sei fazer outra coisa. E tudo bem. Estou bem com o tricô inútil. Já acho ele bonitinho por si só, esse cinza na agulha amarela me agrada de olhar e de manipular enquanto ouço algum podcast. E por hora, já está bom.

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